1984, São Paulo
debonis.renata {at} gmail.com

represented by Giorgio Galotti
www.giorgiogalotti.com

“Thoughts are always shadows of our feelings – always darker, emptier and simpler.” (Friedrich Nietzsche) 

 

The Damage Done consists of a group of works made in 2011 that reveal the heightened sensibility of Renata de Bonis by bringing to the fore the existential dualism that simultaneously hovers over and exists within us all. The fruit of complex negotiations with her shadows, this group alludes to the discomfort of the anxiety-ridden experience of feeling oneself a stranger to one’s own life. The poetic oil paintings and installations, the superficially unique situations become more complex when they problematize their dualities – as revealed by birds in dry leaves that fall from a weeping tree in The Distance, or in the pile swept into a corner that lends its name to the exhibition or, still, through a sense of the burden of institutionalized freedom in the flight of bronze birds in the installation on view in the gallery annex. From work to work the dichotomy of the “unbearable lightness of being” – so aptly coined by Milan Kundera – is revealed and the experience of the works leads to a process of self-questioning from which there is no return, even as we recognize ourselves there, exposed and unloosened by the hand and lived experiences of another. In the “Eternal Return” [1] Nietzsche posited that our lives exist in a condition of eternally cyclical duality and that negotiation with ourselves is a key to freedom, even when this freedom is tied down by the weight of an inexorable cycle: 

"What, if some day or night a demon were to steal after you into your loneliest loneliness and say to you: "This life as you now live it and have lived it, you will have to live once more and innumerable times more; and there will be nothing new in it, but every pain and every joy and every thought and sigh and everything unutterably small or great in your life will have to return to you, all in the same succession and sequence—even this spider and this moonlight between the trees, and even this moment and I myself. The eternal hourglass of existence is turned upside down again and again, and you with it, speck of dust!" Would you not throw yourself down and gnash your teeth and curse the demon who spoke thus? Or have you once experienced a tremendous moment when you would have answered him: "You are a god and never have I heard anything more divine." If this thought gained possession of you, it would change you as you are or perhaps crush you. The question in each and every thing, "Do you desire this once more and innumerable times more?" would lie upon your actions as the greatest weight. Or how well disposed would you have to become to yourself and to life to crave nothing more fervently than this ultimate eternal confirmation and seal?" [The Gay Science]

If not only through that which is available through titles, emotional negotiations and recurring symbolic repetitions in Balança, As tears go by (II) and All hands against his own, the existence of the entire group on exhibition leads us to understand that, within the existential dichotomy inherent to us, the bitterness, the anxiety, the pain and the weight that hold sway here exist without fear; thus, they also free up the existence of their serene opposites in those who felt, feel and shall continue to feel them again.

 

[1 ] Ewige Wiederkunft

 

 

Camila Belchior, September, 2011

 

 

 

 

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"Os pensamentos são as sombras dos nossos sentimentos - sempre mais escuros, mais vazios e mais simples." (Friedrich Nietzsche)

The Damage Done reúne um conjunto de obras de 2011 que revelam a sensibilidade aguçada de Renata de Bonis ao trazerem a tona o dualismo existencial que ao mesmo tempo paira sobre, e existe dentro de todos nós. Fruto de negociações complexas com suas sombras, este conjunto remete ao desconforto da angustiante experiência de sentir-se um membro estranho em sua própria vida. As poéticas pinturas a óleo e instalações, as situações superficialmente singelas, tornam-se mais complexas ao problematizarem suas dualidades, hora ao revelar pássaros em folhas secas que caem de uma árvore que lacrimeja em The Distance, ou na pilha varrida ao canto que dá nome a exposição; hora por sentir o pesar da institucionalização da liberdade na revoada de pássaros em bronze da instalação no anexo. De obra em obra a dicotomia da “insustentável leveza do ser” tão bem cunhada por Milan Kundera se revela e a experiência das obras passa a desencadear um processo de auto-questionamento sem volta ao nos reconhecermos ali, escancarados e desabrochados pela mão e vivências de outro. Já escreveu Nietzsche ao filosofar sobre o “Eterno Retorno”* que nossas vidas existem numa condição de dualidade eterna cíclica e que a negociação com nós mesmos é uma chave para a liberdade, mesmo que esta esteja presa ao peso de um ciclo inexorável:

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?" (A Gaia Ciência)

Se não só através daquilo que nos está disponível através de títulos, negociações emocionais e repetições simbólicas recorrentes em Balança, As tears go by (II) e All hands against his own, entende-se pela existência do conjunto completo exposto, que dentro da dicotomia existencial que nos é inerente, a amargura, a angustia, a dor e o peso que aqui reinam, existem sem medo, pois assim, também liberam a existência de seus opostos serenos em quem os sentiu, sente e sentirá novamente.

*Ewige Wiederkunft

Camila Belchior