1984, São Paulo
debonis.renata {at} gmail.com

represented by Giorgio Galotti
www.giorgiogalotti.com

Suíte
“There is no possible salvation other than the imitation of silence (…)”
E. M. Cioran

On the contrary route to the verbosity of cities and its spectac- ular narratives, the work of Renata De Bonis has been devel- oped by means of a lowering of expectations. With a vocation for the wilderness and the naturalist tract common to the geol- ogist to deal with the things, what we find in her work are the qualities reserved for the exercise of the retreat and the ability to give back to landscapes and insignificant details their full potential.

As of two gestures that explore with new impetus her known verve, “Suite” is born under the sign of silence. The first relies on a literal appropriation that embodies the word to serve to a large installation at the top of the house, in a language game that ventilates more than one semantic possibility. The second intervenes in order to subtract architectural content, and cuts off possible answers by opening a bewildering angle in the floor of a room. One rises and takes the exhibition space to the whole surrounding region while the other jumps into the soil and retreats itself in a specific point.

If from the actions that gives its shape its negative élan is revealed, it’s clear from the outset the intention to think against itself. As soon as it acts it is to suggest an acute apho- nia and an oblique cut in what we take for granted and funda- mental. This tension throws us into an indissoluble clash between the inopportune of coming into the world and the temptation to exist. It is as if it was necessary to move to arrive to Nothing, in a balance that interrogates its own condi- tion while allowing itself to be attracted by the shine and amplitude of emptiness.

The other works composing this exhibition arise from the slit which opens from these two vertical opposed marks. “Part #3″ and “Part #4″ are collections from the residues taken from the ground. The earth and concrete pieces that were used in the skeleton of the subterranean gains the surface in an operation that deliberately manages the cycles of construc- tion and demolition to reprogram the roles in the common narrative. These are volumes that at the same time remits to small geographical features and points out the future of the site in which they find themselves: an enormous construction site that will later originate huge buildings.

In “Part #5″ the cartographic notions of the house are mixed up. The second floor, a space that remains veiled whenever there are visitors, is brought to the social center by the media- tion of devices usually used as security instruments. On the monitors what we see is a mythology of oblivion, capable of creating a tissue that makes it possible to interpret the histo- ry of the spot. In this sense, Renata makes known the prosaic minutiae of an old habitation – transferred by a short term loan and to be sequentially demolished; and brings out the negotiations that allow the exhibition itself to happen.

As a single piece divided into different parts – all available to a generic nomenclature – this suite may be that of the connota- tion of music, geography or the domestic environment. Anyway, this is a foray – the result of almost a year of attend- ance in the place – the developments of which always point to the vacuity at the expense of the unique possibility worldly speech; and asserts that what is possible for it to tell will always be less important than what it shuts up; than it’s silent depths.

Germano Dushá

 

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“Não há salvação possível fora da imitação do silêncio. (…)”
E. M. Cioran

Em rota contrária à verbosidade das cidades e suas narrativas espetaculares, o trabalho de Renata De Bonis tem se desenvolvido por meio de um rebaixamento de expectativas. Com vocação para o ermo e o trato naturalista comum ao geólogo para com as coisas, o que encontramos em sua obra são as qualidades reservadas ao exercício do retiro e a capacidade de devolver às paisagens e detalhes antes insignificantes toda sua potencialidade.

A partir de dois gestos que exploram com novo ímpeto sua conhecida verve, “Suíte” nasce sob o signo do silêncio. O primeiro se vale de uma apropriação literal que materializa o vocábulo para servir a uma grande instalação no topo da casa, em um jogo de linguagem que ventila mais de uma possibilidade semântica. O segundo intervém de forma a subtrair conteúdo arquitetônico, e lima possíveis respostas ao abrir no piso de um quarto uma desconcertante angulação. Um se alça acima e carrega o campo expositivo para toda a região que o cerca, já o outro se atira em direção ao solo e recolhe-se a um ponto específico.

Se das ações que lhe dão forma revela-se o seu elã negativo, deixa claro desde o princípio o tento de pensar contra si mesma. Logo que age é para sugerir a necessidade de uma afonia aguda e um corte oblíquo no que tomamos como certo e fundamental. Essa tensão nos arremessa num embate indissolúvel entre o inoportuno de vir ao mundo e a tentação de existir. É como se fosse necessário se movimentar para chegar ao Nada, em um balanço que interroga sua própria condição ao passo que se deixa atrair pelo brilho e amplidão do vazio.

Os outros trabalhos que compõem esta mostra surgem na fenda que se abre destas marcações verticalmente opostas. “Parte #3” e “Parte #4” são coleções dos resíduos retirados do chão. Os pedaços de concreto e terra antes empregados na ossatura do subterrâneo ganham a superfície numa operação que maneja deliberadamente os ciclos de construção e demolição para reprogramar a distribuição de papéis na narrativa do comum. São volumes que ao mesmo tempo remetem a pequenos acidentes geográficos e apontam para o futuro do sítio em que se encontram: um enorme canteiro de obras que mais tarde dará origem a grandes edificações.

Em “Parte #5″ as noções cartográficas da casa se misturam. O segundo andar, espaço que permanece velado sempre que há visitas, é trazido para o centro social pela mediação de dispositivos normalmente utilizados como instrumentos de segurança. Nos monitores o que vemos é uma mitologia do esquecimento, capaz de criar um tecido no qual torna-se possível interpretar a história do local. Nesse sentido, Renata faz conhecer as minúcias prosaicas de uma habitação antiga – cedida como empréstimo por um curto período e a ser sequencialmente demolida; e traz à tona as negociações que permitem que a própria exposição possa acontecer.

Como peça única dividida em diferentes partes – tudo à disposição de uma nomenclatura genérica – esta suíte pode ser a da conotação da música, geografia ou do ambiente doméstico. De toda forma, trata-se de uma incursão – fruto de quase um ano de frequência no lugar – cujos desdobramentos apontam sempre para a vacuidade em detrimento da possibilidade única do discurso apalavrado; e que afirma que o que lhe é possível dizer será sempre menos importante do que o que cala; do que suas profundidades silenciosas.