1984, São Paulo
debonis.renata {at} gmail.com

represented by Giorgio Galotti
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Mapas de matéria
Mario Gioia

É uma jornada algo angustiante. Os contornos das montanhas permanecem impassíveis, numa espécie de monumento natural e desafiador. O protagonista dessa trajetória que parece fadada ao fracasso nunca aparece. De acordo com a passagem do tempo, algo na imagem, que não é estática, muda, mas a aproximação almejada nunca se completa. E o som do vento é contínuo. Mountains are mountains, men are men é obra-chave em Norte, individual da paulistana Renata de Bonis para o Programa de Exposições 2014 do CCSP (Centro Cultural São Paulo), e tem particular interesse por ser um vídeo, linguagem com a qual a artista não é tão conhecida, já que ela vem se destacando por sua habilidade na pintura. Assim, Norte atesta seu caráter movediço, fazendo com que o conjunto de pinturas, objetos e vídeo seja consistente por conta do olhar e do conceito de De Bonis, que articula todos esses meios com grande coerência.

Norte é intrincadamente ligada à experiência da artista na Islândia, durante uma residência artística em 2013. A vivência em Skagaströnd, povoado com 500 moradores ao norte do país, a fez ter proximidade com esse ambiente singular, silencioso, algo indomável, sintetizado no monte Spákonufell, que acaba por guiar a peça audiovisual da exposição e também por transbordar pelo restante da mostra. “No lugar, comecei a perceber um tempo mais geológico”, relata a artista.

Tal percepção do tempo, mais detido e com movimentação bem distante da volatilidade emblemática do urbano, liga a produção recente de De Bonis com movimentos como a land art, a earth art e outras variações nessa linha. “Os estratos da Terra são um museu remexido. Incrustado no sedimento está um texto contendo limites e fronteiras que fogem à ordem racional e às estruturas sociais que confinam a arte. A fim de ler as rochas, temos de tomar consciência do tempo geológico, e das camadas de material pré-histórico enterradas na crosta da Terra. [...] As grades abstratas contendo a matéria bruta são observadas como algo incompleto, quebrado e espalhado”1, escreve Robert Smithson (1938-1973), expoente da corrente no texto fulcral Uma sedimentação da mente: projetos de terra.

Nesse sentido, Monolito é outro trabalho relevante no corpus da exposição. Trata-se de um conjunto de 90 pequenas pinturas sobre papel que retratam 90 pedras distintamente coletadas por ela no período da residência. Novamente, os elos com a arte que lida com o meio ambiente de forma mais ampla, com a performance e com uma serialização que se liga a vertentes de cunho mais conceitual dentro da arte contemporânea. Não deixa de ser um indagador sobre a representação e o status da imagem num mundo saturado por elas. “A caminhada é um dos nossos derradeiros espaços de intimidade”2, diz Francis Alÿs, reproduzido aqui por Bourriaud.

Também é elogiável o mergulho da artista por territórios inóspitos, bastante distintos da metropolitana cidade natal onde vive, que a fez criar produções calcadas no silêncio, no isolamento, na solidão. Desde 2009, quando foi convidada para a residência Joshua Tree Highland House, nos EUA, ao lado do parque e sediada num deserto, De Bonis faz da sua paleta em tons rebaixados a retratar figuras errantes, perdidas, em paisagens quase a se desmanchar, uma de suas fortes características. Conjuntos como o de Harvest Memories, em que sobressaem telas como Noah´s Washing Machines e The Buried House, atestam esse estado de espírito nada solar.

De certa forma, esses trabalhos já davam indícios para o que viria a seguir posteriormente, uma fluidez de linguagens e suportes alicerçados numa poética discreta, longe de estridências. A planaridade das superfícies pictóricas se transmutava em algo mais matérico, invadindo o espaço e, por fim, resultando em experimentos tridimensionais. Norte exibe, assim, The pursuit of the whole, duo de desenho e objeto, sendo que o componente escultórico mimetiza uma rocha cindida em dois. Também é inegável que Monolito tenha uma ambientação instalativa e que Mountains are... seja exibido em um mobiliário que foge da mera tela plana.

Outra das qualidades claras da obra de De Bonis é a investigação ininterrupta da paisagem. Gênero clássico das belas artes, em Norte a artista a analisa de forma mais pungente em For those who perished and for those who survived. O políptico joga com a linha do horizonte, sendo deslocada em diferentes alturas, a servir de cume para uma formação montanhosa, em variados contornos, tendo sob sua existência uma massa misteriosa, enegrecida. O elemento se impõe tanto pela solidez, por uma sedimentação, como denota uma existência ameaçadora, um perigo à espreita, tal qual como uma fonte de magma ora oculto, porém que, por vezes, explode sem amarras e destroi o que tiver pela frente.

É por meio desse jogo de extremos que a obra de Renata de Bonis finca sua existência, às vezes em sendas mais precárias, em outros tempos trilhando caminhos mais conhecidos e, até por isso, desafiadores por conta de uma reinvenção mais árdua e cotidiana. Entre o natural e o construído, o efêmero e o permanente, o permeável e o enclausurado, sua poética continua a atrair, apesar da aridez, da falta de palavras, dos limites entricheirados.

Mario Gioia

1. FERREIRA, Glória e COTRIM, Cecilia (org.). Escritos de Artistas – Anos 60/70. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2006, p. 194

2. BOURRIAUD, Nicolas. Radicante. São Paulo, Martins Fontes, 2011, p. 96