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“ao se deslocar até as paisagens retratadas pelo alemão caspar david friedrich, renata de bonis destaca a importância da experiência”, diz camila belchior

Revista Bamboo #57

13.04.2016
texto
camila belchior
 

 

Numa era em que viver com o filtro das telas eletrônicas se torna um modus operandi, quase natural, resgatar o poder de deslocamentos e de vivências pessoais é buscar uma relação mais profunda com a vida. Ao nos deslocarmos até alguma coisa – ao invés de acessá-la apenas por meio de reproduções visuais ou relatos de terceiros –, imergimos no contexto e nos abrimos ao inesperado, às camadas únicas que a experiência desperta em nós. 

Buscar experiências em meio a horizontes mais amplos e naturais faz parte do processo de trabalho da artista Renata De Bonis há muitos anos. Para conduzir suas pesquisas artísticas, ela já percorreu o circuito das obras icônicas de land art nos Estados Unidos, e chegou a viver 45 dias no deserto de Joshua Tree, na Califórnia. Em 2015, convidada a participar de um residência artística na Alemanha, Renata passou um mês rastreando os passos do artista alemão Caspar David Friedrich. O projeto, em processo de conclusão, retoma as origens geográficas das pinturas realizadas no século 19 na terra natal do artista.

Renata conta que recorre a Friedrich desde o início de sua carreira, principalmente no estudo da paleta de cores, das relações de escala e da profundidade existente nas imagens do alemão – traços que o tornaram um dos mais emblemáticos pintores do Romantismo. Em uma outra residência, na Islândia em 2014, seu projeto contemplaria a produção de pinturas. Ao se ver diante da potência da paisagem do país, no entanto, a artista entendeu que não conseguiria traduzi-la com tinta e pincel de maneira adequada. Optou por gravar vídeos e os sons do lugar. “Me fascina até hoje como o Friedrich conseguia transpor paisagens gigantes para a escala da tela. Na Islândia, eu tinha uma sensação de vertigem constante”, lembra ela. “É maluco que na natureza bruta a relação de escala seja outra. Na cidade não há horizonte, e essa falta dita uma relação muito diferente com a profundidade.” 

Peregrinação na Alemanha
“Estou há anos circundando e tangenciando o trabalho do Caspar, levando ele comigo aos lugares aos quais viajo, lugares que não são necessariamente os dele”, diz Renata. Com o convite para a residência na Alemanha, a artista pôde se debruçar sobre as paisagens de seu fiel companheiro – lugares extraordinários que lhe permitiram aplicar, em sua arte, a noção romântica do sublime, que desejava inspirar sensações como mistério e maravilha.

“A relação que o Caspar tinha com a paisagem era uma resposta ao mundo que estava se transformando ao redor dele [devido à Revolução Industrial]. Fiquei pensando em como ele sentiu essas mudanças de sons e de cheiros em lugares que lhe eram tão queridos.” 

 

 

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