1984, São Paulo
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Luz, Câmera, Ação?

Reflexões sobre o Arte Atual Festival _ Olivia Ardui

 

A segunda edição do Arte Atual Festival, com o título Quadro, Desquadro, Requadro, teve como ponto de partida uma reflexão sobre as modalidades de construção do espaço e dos limites da representação. Uma proposição  ousada e ambiciosa para um ciclo de mostras que se define como uma proposta mais experimental e com um compromisso menos rígido com pressupostos teóricos, visto a ambiguidade e complexidade do termo amplamente utilizado no discurso e teoria das artes.

Para citar um exemplo eminente entre muitos, Ernst Gombrich parte da definição de representação entendida como uma maneira de "invocar mediante descrição ou retrato ou imaginação, figurar, simular na mente ou pelos sentidos, servir de ou ser tido por aparência de, estar para, ser espécime de, ocupar o lugar de, ser substituto de"[1]. Essa imagem ou apresentação cênica torna visível e, portanto, presente, uma realidade, uma pessoa ou até mesmo uma ideia, que não estaria de fato diante dos nossos olhos. Mas essa presentificação não replica a coisa representada à maneira de um espelho, ela implica um processo de abstração, atribuição de significados a símbolos reconhecíveis, social e historicamente construídos com o intuito de serem lidos e apreendidos pelos espectadores.

Se considerarmos literalmente essa definição, a saber, na sua acepção de presentificação de uma ausência, de revelar algo que normalmente não se daria a ver, por um lado, mas também o caráter construído e convencional dessa aparência, a ideia de representação ecoa fortemente com os trabalhos presentes na exposição. De fato, as obras apresentadas parecem compartilhar uma vontade deevidenciar ou tornar mais palpáveis estruturas e dispositivos para a constituição de personagens e ficções, para a elaboração de uma ambientação ou a composição da imagem ou, de maneira mais indireta, descortinar memórias e histórias veladas sobre uma pessoa ou lugar.

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Em Anotações a partir de Caspar David Friedrich, Renata De Bonis também lida com a estetização de uma experiência no âmbito da pintura em contraposição à realidade concreta. A artista pesquisa as paisagens sublimes consagradas por esse pintor romântico alemão da primeira metade do século XIX. Conhecido por suas pinturas em que figuras se perdem em meio a horizontes grandiosos e ruínas medievais monumentais, a obra de Friedrich é representativa do mal-do-século, um sentimento de melancolia diante da futilidade da existência, grandeza da natureza e do passado. Durante uma residência que realizou na Alemanha, a artista mapeou, localizou e visitou diversos dos cenários em que ele tinha realizado as suas pinturas afim de se deparar com essas paisagens e todo o imaginário que foi construído em torno delas.

Renata De Bonis capturou, então, a sonoridade desses ambientes, justamente a sua dimensão mais impalpável e evanescente. O som gravado foi editado em faixas que correspondem às locações específicas das obras de Friedrich. Caixas de som espalhadas pelo espaço reproduziam uma faixa por vez, atualizando, com cerca de um século e meio de distância, a ambiência acústica daquele lugar. A vista de um mar aparentemente tranquilo e sereno, assim como a composição sóbria de Der Mönch am Meer [Monge Diante do Mar], por exemplo, contrastam com a veemência e violência do som das ondas que quebram. Esses contrastes apontam mais uma vez para o caráter convencional da representação, que implica a composição e reagenciamento de elementos num campo imagético ou cênico.

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Texto na íntegra :

http://www.institutotomieohtake.org.br/curadoria/post/luz-camera-aaao